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RESENHA
A psicanálise, a ciência, o real, de Miquel Bassols I Puig

RAM MANDIL

Universidade Federal de Minas Gerais

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Este livro coloca à disposição do leitor uma coletânea de textos do psicanalista Miquel Bassols i Puig, Analista Membro da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis e da Ecole de la Cause freudienne e ex-presidente da Associação Mundial de Psicanálise (2014-2018).  Estes escritos têm origem em intervenções em colóquios, jornadas e seminários e revelam uma preocupação do autor não apenas em refletir sobre a prática e a teoria da psicanálise no século xxi, mas também de situá-las no debate científico da atualidade.

Os três campos a serem tratados pelo autor, tais como indicados no título, aparecem separados por vírgulas, indicando um intervalo, mas também os possíveis encadeamentos entre eles.

A edição do livro – por sinal bastante cuidadosa – agrupa as reflexões do autor em cinco partes, ou melhor, em cinco conjuntos, que enfeixam a diversidade das abordagens em torno de pontos temáticos comuns.

A primeira parte, “O real da psicanálise”, inicia-se com uma intervenção de Bassols realizada no encontro Critérios de cientificidade da psicanálise. O combate epistemológico, realizado no parlamento de Lyon em setembro de 2010.  O tema central das reflexões é a distinção entre o real da ciência e o real da psicanálise que, no ensino de Lacan, foi colocada em evidência a partir do momento em que ele constata que “não há ciência do real”.  O percurso de Bassols para examinar essa temática se faz a partir de uma leitura fina e bem informada dos debates da filosofia da ciência contemporânea, bem como dos fundamentos das teorias cognitivas e dos textos fundadores que serviram de base para as chamadas neurociências.

Para que se possa ter uma dimensão da distinção entre o real da ciência e o real da psicanálise, o ponto de partida ser levar em consideração que a ciência foi, com Freud, “a condição nativa da psicanálise”, expressão que Bassols encontra nas reflexões de Jacques-Alain Miller sobre o tema (p.33). Seu percurso atravessa os lugares ocupados pela psicanálise em relação à ciência ao longo do ensino de Lacan, com a localização cada vez mais precisa de um real próprio à psicanálise.  Como Bassols afirma, “o real da psicanálise é um real próprio ao campo da sexualidade e da linguagem, um real que surge como uma profunda perturbação do gozo e do sentido no ser falante” (p.14). Trata-se, mais precisamente, de um real   “que só aparece como um furo no campo do saber (…) sobre o gozo e a relação sexual.” (idem)

Ainda neste exame sobre as relações entre psicanálise e ciência, Bassols procura enfocar a noção de “consciência”, que, no campo das ciências cognitivas, está implicada no ato da observação e da representação.  Nestas reflexões, o psicanalista chama a atenção para o aspecto fantasmático envolvido na noção de consciência incluindo-se ai a fantasia de seu suposto “correlato neuronal”.  A crítica estende-se à figura do Eu, pensado como “função de unificação e de síntese (…) que se atribui à consciência.” (P.44).

A consideração sobre o real da psicanálise não pode deixar de levar em conta o par formado com os semblantes, sobretudo em relação ao papel fundamental do semblante do falo, entendido como “lugar em que se encarnam os enigmas do sentido e do sexo, do gozo e de suas diferenças irredutíveis.” (P.36). Sobre este aspecto, Bassols se detém sobre a intersecção entre o real e o semblante: “essa intersecção faz um furo”, ou mais precisamente, ela “é esse furo.” (p. 36).

Num interessante contraste entre a “Ressonância semântica vs. Ressonância magnética”, baseado justamente sobre a noção de “ressonância”, Bassols chama a atenção para o “vírus causal” que “hoje motiva a epidemia absolutamente delirante de querer representar e cartografar todas as funções subjetivas no cérebro.” (P. 64)   Já em seu texto “A caixa de costura das terapias cognitivo-comportamentais”, o autor demonstra o paradoxo entre o entendimento da cognição como “processamento de informações” e a “dispersão de práticas” agrupadas sob a sigla TCC que, na verdade, pouca relação teriam com os modelos teóricos das chamadas ciências cognitivas.

Na segunda parte do livro, sob o título “Ciência, desejo, feminidade”, Bassols prossegue em sua investigação sobre as relações entre a psicanálise e a ciência, agregando a noção de desejo e incorporando a este debate as teses de Lacan sobre o feminino. Em “Ciência e desejo”, ele parte da pergunta :“É possível uma ciência do desejo?” (p.129) para demonstrar o deslocamento aí operado por Lacan ao se interrogar sobre o “desejo do cientista” para daí distinguir “o desejo do analista”.

O feminino introduz-se na discussão a partir das questões que ele traz para o discurso da ciência:  é possível localizar e medir o gozo feminino? A partir das formulações de Lacan em relação a este gozo, como Outro em relação ao gozo fálico,  Bassols acentua o aspecto “indeterminado” deste gozo e as perturbações que isso traz para as considerações da ciência.

A amplitude da investigação promovida por Bassols em relação às conjunções/disjunções entre o campo científico e o psicanalítico dá lugar ao tema da terceira parte, intitulada   “O desejo do cientista”. Um profundo e instrutivo diálogo entre o psicanalista e o cientista Javier Peteiro, autor do livro O autoritarismo científico” (2010) é uma passagem significativa do livro e que merece leitura cuidadosa pela mobilização de temas relevantes ao estado atual da ciência do ponto de vista epistêmico.

Ainda nesse escopo de uma interrogação sobre o “desejo do cientista”, Bassols debate a noção de “inconsciente cognitivo” proposta por Antonio Damásio; e examina o que, a seu ver, parece ser o caminho da ciência atual, “entre os sonhos da razão – aqueles que, segundo Goya, engendram monstros – e a nostalgia do pai – a nostalgia de uma religião que sempre tentou restaurar a imagem ideal do pai para encarar esses monstros.” (P. 221) Um exemplo desse sonho nostálgico do pai,  Bassols localiza na obra de Eric Kandel e sua perspectiva de uma “função global do córtex cerebral” como matriz “de uma reprodução ponto a ponto do macrocosmo exterior num microcosmo interior”. P. 230

A quarta parte do livro é dedicada ao “real da clínica”, dando destaque à linguagem e à sua relação com o real, mediada pela noção de transtorno ou de estorvo. Nesta parte, Bassols chama a atenção para os efeitos da perspectiva quantificadora e reducionista para o declínio da clínica psiquiátrica. Também nesta parte, ele chama a atenção para a necessidade de se romper “o silêncio da angústia” na clínica psiquiátrica atual e, numa consideração da clínica das psicoses e da melancolia a partir de dois casos, Bassols busca demonstrar as exigências que se colocam para a clínica da psicanálise numa era em que preponderam os efeitos da ciência sobre o sujeito. Não se poderia excluir desta avaliação dos efeitos do discurso da ciência sobre a clínica, o que hoje se circunscreve sob o nome de autismo, tema ao qual Bassols se detém mais diretamente em dois de seus textos.

Para concluir a coletânea, Bassols inclui uma reflexão sobre o passe em suas considerações sobre o real, buscando localizar o que seria, ao final de uma análise, o “resto de sentido”, situado entre “o resto da transferência” e “o resto sintomático”.  O “resto” é entendido aqui não apenas como marca, mas “o que fica de uma marca, quando esta deixou de fazer sentido para quem a lera como marca”. (P. 282)  Por fim, Bassols também nos oferece uma reflexão sobre “A cifra irônica dos A.M.E.”, situando de modo preciso o paradoxo presente nesta  nomeação proveniente da Escola de Lacan: como “garantir do lugar do Outro as provas que um membro dá acerca de um trabalho, de um saber fazer sobre uma experiência que, no entanto, funda-se no fato de que não há Outro da garantia”?

Eis aí uma sequência impressionante de reflexões que Bassols nos propõe e que merecem ser retomadas pelos psicanalistas de modo que possam estar à altura dos desafios que são lançados a cada dia por isso a que Freud se referia com o nome de Kultur.  Se, a partir de Lacan, a psicanálise já não se reconhece mais como tributária dos ideais da ciência, ela, no entanto, jamais poderá desconhecer os efeitos que o discurso da ciência produz sobre aqueles que hoje procuram uma análise.  Esta é uma das razões que fazem deste livro de Miquel Bassols i Puig uma bússola para nos orientarmos nas águas turvas de nosso tempo.